quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Delírios delirantes..., por Dom Henrique Soares


...( Lí e queria partilhar com vocês)...



Caro Internauta, acabei de ler uma entrevista na sempre antirreligiosa Revista Veja com o, digamos assim, “filósofo” Sam Harris, um americano que com outros três exasperados ateus (Daniel Dennet, Richard Dawkins e Christopher Hitchens), ocupa-se de combater a ideia de Deus, de religião e, de modo particular, o cristianismo. Confesso que fiquei perplexo com o nível da reflexão e das afirmações do Sr. Harris. Definitivamente, o ateísmo já teve defensores mais dignos e inteligentes. De todas as sandices que o entrevistado apresentou, o que mais me impressionou foi constatar a incapacidade de aprender com a história, de refletir com sabedoria e certa objetividade sobre o passado. O nível de reflexão dos quatro ilustres vendedores de livros tem a profundidade de um buraco de bola de golfe. Nos EUA, eles são chamados de "Cavaleiros do Apocalipse". Não merecem tal título: é muito pomposo! Se juntarmos mais uns três ateus do nível desses combativos ativistas, levando em conta a profundidade dos argumentos que apresentam, poderíamos chamá-los com mais justiça de "Sete Anões"...

Comento, brevemente, algumas afirmações do “filósofo”:

1. Um dos primeiros erros é atribuir sem mais, de modo simplista, o atentado contra as torres gêmeas à religião. Qualquer pessoa medianamente informada sabe que o problema do fanatismo religioso no Oriente Médio é muito mais complexa. Colocar a questão simplesmente como religiosa é, no mínimo, ignorância e, no máximo, má fé. Por que não se toca no colonialismo europeu do século XIX, inspirado precisamente por certa ciência, em nome do darwinismo social? Por que não se referir aos interesses econômicos vinculados ao petróleo e ao gás, bem como às questões geopolíticas? Por que não recordar que as religiões podem ser e são muitas vezes promotoras da paz e da tolerância? Por que esquecer que o conceito de pessoa, tão importante na tradição ocidental, é de matriz cristã? Associar pura e simplesmente religião à intolerância, obscurantismo e violência é de uma má fé deplorável! Poderíamos fazer o mesmo com a ciência! Ou não foi em nome da ciência e da razão que tivemos as justificativas para a morte de milhões de pessoas, fazendo do luminoso e racional século XX o mais cruento e cruel de toda a história humana? Então, é necessário cuidado no manejo de certas afirmações. Os bons filósofos, aqueles que não reduzem a realidade ao branco e ao preto, sabem distinguir melhor as coisas...

2. O nosso Autor afirma que “através das eras, os dogmas contribuíram para a miséria humana de maneira tremenda e desnecessária”. É o pecado recorrente nas ideias do entrevistado: as afirmações simplórias. Os dogmas também foram causa de coesão social, se segurança e paz para as pessoas, de consolo e capacidade de uma abordagem positiva da realidade. No caso do cristianismo, a fé num Deus único, bom e salvador, foi base para a afirmação da dignidade da pessoa humana, do respeito pela consciência, da promoção da paz, do desenvolvimento científico, enquanto afirmava que o homem tem o encargo de governar a terra, etc. É preciso não confundir o dogma com o desvirtuamento dele, a religião com os usos aberrantes que dela se possam fazer. O mesmo vale para a ciência e para a razão humana. Foi inspirado no racionalismo que Robespierre instituiu o terror na França; foi com os recursos da ciência que se matou milhares com gás venenoso na I Guerra Mundial, na Guerra do Vietnam, que se encontrou a solução final para os judeus nos campos nazistas e que se eliminou duas cidades japonesas. Nem por isso se pode dizer que a ciência é um mal. É incrível como o Autor pareça nunca ter estudado filosofia da ciência e afins!

3. “Deveria ser consenso o apreço ao bem-estar humano. Se alguma coisa é má, é porque ela causa um grande e desnecessário sofrimento ou impede a felicidade das pessoas. Se alguma coisa é boa, é porque ela faz o contrário”. Eis aqui uma afirmação que seria perfeitamente compreensível na boca do meu sobrinho de 14 anos! Quem pode determinar o que é bem-estar? É o mesmo para todas as pessoas, para todas as culturas? Por falar em sofrimento, será que a ciência vai inventar uma droga que elimine no homem suas questões existenciais? Será que nosso Autor dará à humanidade as condições para enfrentar realidades como o sofrimento, a solidão, o fracasso, a dor e a morte? Será a ciência a saciar no homem sua sede de infinito e sua abertura para o Transcendente? Mas, Harris acredita que a ciência – e particularmente a neurociência – possa determinar o que é bem-estar e, a partir disso, fundar uma moralidade normativa para a humanidade! Eis o que faltava: uma moralidade científica! Compreende, meu Leitor? Nosso guru quer tirar a religião aberta ao Transcendente para criar uma outra, imanente, que imporia à humanidade uma moralidade "científica" de encomenda, estabelecida por cientistas iluminados e bonzinhos, sem interesses escusos... Não é a toa, que de modo muito coerente, ele defende a intolerância contra certa tolerância... Haja critérios subjetivos nesses becos e trilhas mentais! É uma visão louca dessas que abre caminho para todo infame totalitarismo, que termina destruindo a liberdade das pessoas, a consciência do indivíduo e fazendo da vida um inferno! É incrível como o nosso “filósofo” parece nunca ter lido de modo crítico e reflexivo o caminho histórico da humanidade! Tente o meu Leitor imaginar que gracinha um mundo regido por uma moral do bem-estar e um bem-estar determinado pela neurociência. É comovente!

4. Impressionante pela puerilidade a definição di ciência dada por Harris: “Chamo de ciência o nosso melhor esforço em fazer afirmativas honestas sobre a natureza do mundo, tendo como base a razão e as evidências”. Uma afirmação digna de uma menina de escola média depois de recitar um poema num grêmio escolar dos anos 50! Precisaríamos ver bem o conceito de honestidade e os usos que já foram feitos da pretensa honestidade, imparcialidade e objetividade da ciência... Precisaríamos levar em conta que a ciência é feita por cientistas e os cientistas são humanos, com paixões, interesses, estreiteza de visão e de valores... Pensava que tinha ficado no século XVIII e havia sido definitivamente enterrada a ideia boba de que o homem é bonzinho e pode, guiado unicamente pela razão, livre de suas paixões, criar por si um mundo maravilhoso!

5. Harris iguala o Deus da Bíblia aos vários deuses mitológicos... Esquece ou desconhece (!) que toda a civilização ocidental foi plasmada em enorme parte pela fé no Deus da Bíblia! Faz de conta que ignora que as melhores intuições do homem ocidental – inclusive na tradição laica – têm suas raízes na moralidade do Deus da Bíblia. O que se faz com um “intelectual” desse porte? O que responder a alguém assim?

6. Para terminar, nosso Autor coroa suas assertivas acusando o Santo Padre de ser o responsável primeiro pelos atos de pedofilia no clero. Sua sentença é inexorável: cadeia para o Santo Padre! Não comentarei tal infâmia! Só digo isto: por esta avaliação, por este tipo de afirmação, pode-se ver o grau de seriedade, imparcialidade e honestidade das afirmações do Autor em baila. É um belo exemplo das “afirmativas honestas” que ele imagina para qualificar a ciência e estabelecer a moralidade humana... De filósofos desse tipo, de pensadores desse naipe, livre-nos o Deus da Bíblia, única salvação para uma humanidade, que produz aloprados desse tipo!


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